PARIS - Est em ponto de ebulio na Frana a polmica provocada pelo apoio do Abade Pierre, considerado o homem mais popular do pas, a seu velho amigo o filsofo Roger Garaudy - ex-comunista e ex-catlico convertido ao islamismo - em torno das teses de reviso do Holocausto que este sustenta em seu livro Os Mitos fundadores da poltica israelense. A simpatia hipotecada pelo sacerdote ao polemista - e no necessariamente a todo o contedo de suas teses - repercutiu mal no momento em que Garaudy  processado com base na lei que pune a negao de crimes contra a humanidade, e semeou a confuso na comunidade judaica e na opinio pblica.

nimos - O tema no podia ser mais delicado, e os nimos, mais facilmente exaltveis. Militante islmico, Garaudy considera no livro que genocdio e holocausto so palavras exageradas para os "pogroms" nazistas; prope "uma histria crtica dos crimes hitleristas"; e assume posio combatente contra "o dogma dos seis milhes de judeus exterminados", que segundo ele  usado para justificar os excessos da poltica de Israel na Palestina e para deixar o Estado judeu "acima das leis internacionais". Garaudy apresenta os "historiadores crticos" - ou negacionistas - como pesquisadores perseguidos cujos trabalhos no foram contestados cientificamente. E se aventura numa tentativa de relativizar o horror: segundo ele, gente de outros povos foi morta tambm pelos nazistas e nem todos os judeus morreram em cmaras de gs, mas tambm de fome, em marcha forada ou a bala.

A questo poderia ser: aonde semelhante linha de pensamento levaria? Mas o fato  que, relativizao, reviso ou negao, o que escreve Garaudy  passvel, na Frana, das penas da lei Gayssot, que no seu caso foi invocada pelo Movimento Contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos. O pensador foi indiciado e poder passar um ano na cadeia.

Onde a porca torceu o rabo, no entanto, foi na interveno do Abade Pierre, o homem que espalhou pelo mundo as Comunidades de Emas, que ensinou os franceses a pensarem mais nos pobres, que renunciou  fortuna pessoal, ajudou judeus a escaparem para a Sua durante a Segunda Guerra e  membro da Liga Contra o Racismo e o Anti-semitismo (Licra).

Calnia - Tambm simpatizante da causa palestina, o sacerdote de 83 anos foi solicitado por Garaudy a sair em sua defesa, como outros amigos. Comeou por considerar "uma calnia confundir teu livro com as teses revisionistas". Mais adiante, reconheceu no ter lido o livro, mas um resumo, insistindo porm em argumentos como o do nmero de mortos no campo de concentrao de Auschwitz, onde se afirmou inicialmente que houve 4 milhes de vtimas, nmero corrigido posteriormente para 1 milho; mesmo considerando que "a abominao  a mesma", o abade sustenta haver a uma demonstrao de que o tema deve ser objeto de investigao imparcial.

O Abade Pierre foi chamado a explicaes na Liga contra o Racismo. Recuou, disse que no entra no mrito do livro nem apia suas teses, mas repisou o argumento da integridade intelectual de Garaudy e da necessidade de debater livremente este tema.

Os jornais esto cheios de contestaes, respostas e desafios ao abade. E ontem, enquanto a hierarquia catlica mantm cauteloso silncio, ele voltou  carga em entrevista ao Libration, dizendo-se satisfeito com a polmica: "Muita gente me tem dito obrigado pela coragem de questionar um tabu.  preciso parar de chamar de anti-semita quem questiona a histria do Holocausto. No nos deixaremos mais chamar de antijudeus ou anti-semitas por dizer que um judeu canta mal."

